terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Cap. 9 - Os braços da escuridão (trechos)



O poço já me era familiar: tantas e tantas vezes não enxergava um palmo de distância em meio à escuridão. Não tinha outra opção a não ser escalar pedra a pedra para que enfim pudesse novamente, na luz, olhar e perceber. (...)

Tanta escalada me fez de braços fortes e por mais que houvesse várias quedas, meu braço sempre daria um jeito. Certo dia alguém também estava lá em baixo, de certo havia caído brutalmente. Respiração ofegante, e suspiro de agonia. Parecia assustado. Como de costume, não enxergava nada. Porém, era um sofrimento escancarado que não era perceptível aos olhos, mas à alma. (...)

Falei: Hey amigo! Muitas vezes cai em poços mais escuros e fundos do que esse. O cidadão não sabia se ria ou se chorava ainda mais por encontrar outro ser vivo naquele lugar inóspito. (...)
Tudo mudou quando lhe ofereci ajuda propondo uma saída do poço através de um arremesso. Será que meus braços eram assim fortes mesmo? Ou será que o impulso ofertado apenas faria com que ele caísse de uma altura ainda maior? Bom, pior do que já estava, era difícil: ferido, sem esperanças e principalmente, sem vontade.

Sem mais refletir atirei-o para cima com toda força que os anos no escuro me providenciaram. Ele não chegou ao fim do poço, alias não chegou nem na metade, meus  braços eram fortes para aguentar muito tempo escalando, mas já não tinham forças para tal impulsão. 

Creio que a possibilidade de saída foi crucial para ressurgir a vontade e a esperança. Os ferimentos? Nem sei se ele lembrava mais, pois para escalar o final do poço como fez, ele precisaria de, no mínimo, uma boa dose de morfina. 

Subi logo em seguida com os braços da escuridão e o avistei, já são e salvo. São e salvo era uma maneira de dizer, pois suas feridas físicas ainda estavam lá, mas depois de assistir ao salto para vida executado por esta pessoa, pensei: de que vale esta física mesmo?(...)

Um comentário:

Unknown disse...

q demais!!!!!! aguardo o "todo"... parabéns jorge