O poço já me era familiar: tantas e tantas vezes não
enxergava um palmo de distância em meio à escuridão. Não tinha outra opção a
não ser escalar pedra a pedra para que enfim pudesse novamente, na luz, olhar e
perceber. (...)
Tanta escalada me fez de braços fortes e por mais que houvesse
várias quedas, meu braço sempre daria um jeito. Certo dia alguém também estava
lá em baixo, de certo havia caído brutalmente. Respiração ofegante, e suspiro
de agonia. Parecia assustado. Como de costume, não enxergava nada. Porém, era
um sofrimento escancarado que não era perceptível aos olhos, mas à alma. (...)
Falei: Hey amigo! Muitas vezes cai em poços mais escuros e
fundos do que esse. O cidadão não sabia se ria ou se chorava ainda mais por
encontrar outro ser vivo naquele lugar inóspito. (...)
Tudo mudou quando lhe ofereci ajuda propondo uma saída do
poço através de um arremesso. Será que meus braços eram assim fortes mesmo? Ou
será que o impulso ofertado apenas faria com que ele caísse de uma altura ainda
maior? Bom, pior do que já estava, era difícil: ferido, sem esperanças e
principalmente, sem vontade.
Sem mais refletir atirei-o para cima com toda força que os
anos no escuro me providenciaram. Ele não chegou ao fim do poço, alias não
chegou nem na metade, meus braços eram
fortes para aguentar muito tempo escalando, mas já não tinham forças para tal
impulsão.
Creio que a possibilidade de saída foi crucial para ressurgir a
vontade e a esperança. Os ferimentos? Nem sei se ele lembrava mais, pois para escalar
o final do poço como fez, ele precisaria de, no mínimo, uma boa dose de
morfina.
Subi logo em seguida com os braços da escuridão e o avistei,
já são e salvo. São e salvo era uma maneira de dizer, pois suas feridas físicas
ainda estavam lá, mas depois de assistir ao salto para vida executado por esta
pessoa, pensei: de que vale esta física mesmo?(...)